Na Estrada
Uma prova
sem vencedores

Por André Azevedo, piloto de caminhão da Equipe Petrobras Lubrax

André Azevedo se prepara agora para os campeonatos de Rally Cross Country 2008

Travessias em zonas de risco, organizações terroristas, mortes, ameaças ao acampamento com 2.500 competidores e planos de ataques com mísseis e morteiros. Parecem cenas de um filme de ação, mas tudo isso realmente poderia ter ocorrido se não fosse uma decisão inédita tomada pela organização do Rally Dakar e que entristeceu todas as equipes que tinham um sonho em comum: superar o desafio do deserto. Uns pela primeira vez e outros, como eu, sonhando em competir na 30ª edição desta que é a competição mais temida do mundo.

Tudo corria normalmente, era manhã do dia quatro de janeiro, em Lisboa (Portugal). Estávamos começando a fazer as verificações em nosso caminhão, quando recebemos a notícia de que as atividades deveriam ser paralisadas e que haveria uma reunião ao meio-dia com os organizadores do evento.


A notícia inesperada

A expectativa era enorme, já estávamos esperando algumas alterações de percurso, devido ao assassinato de quatro turistas franceses que estavam na Mauritânia, em 24 de dezembro do ano passado. Esta região é conhecida por ser uma das mais perigosas do mundo, sendo palco de inúmeros conflitos étnicos desde 1960, quando deixou de ser colônia francesa e conquistou sua independência. Tanto é que no Dakar de 2007 tivemos que cancelar uma etapa, pois grupos terroristas estavam sendo treinados naquela região.

Mas não se tratavam de simples modificações de trajeto. Sentados ali, entre nossas equipes, ouvimos que o Rally Dakar 2008 iria dormir mais cedo este ano, mas que em 2009 voltaria com mais força e de forma diferente. A primeira reação foi de tristeza, como um banho de água fria.
O semblante de todos caracterizava desconforto, frustração e choque.

Presenciei situações ruins em 1991 quando um piloto de caminhão foi assassinado ao passar por um fogo cruzado entre governos e tribos africanas e, em 1999, quando ocorreu um grande arrastão e muitos pilotos foram assaltados. Mas nada parecido com esta sensação de cancelamento do rally. Afinal, treinamos o ano inteiro e nos dedicamos ao máximo, para no final não podermos vivenciar a adrenalina da competição.



Dakar sul-americano

Apesar de toda a tristeza causada pelo cancelamento do Rally Dakar 2008, uma boa notícia, confirmada no dia 12 de fevereiro, fez com que os competidores vibrassem novamente.

O maior rally do mundo terá sua próxima edição na América do Sul. Desta vez, o Saara dará lugar ao Deserto do Atacama e os países
percorridos serão Argentina e Chile.
  Com um percurso de nove mil quilômetros, sendo seis mil de especiais (trechos cronometrados), o Rally Dakar Argentina Chile 2009 ocorrerá entre os dias 3 e 18 de janeiro e terá sua largada em Buenos Aires (AR). André Azevedo e sua equipe já confirmaram presença!



Decisão acertada

Passado o primeiro impacto, tomamos conhecimento de que o grupo terrorista Al Qaeda, ligado a Osama Bin Laden, que já fez ataques em Nova Iorque, Londres e Madri, teria feito ameaças com armas poderosas ao nosso acampamento no deserto da Mauritânia e que três militares haviam sido mortos em uma base militar. Parecia que estávamos em um set de filmagens e que, a qualquer momento, homens-bomba iriam nos atacar.

Acredito que foi uma decisão acertada; falou mais alto o bom senso da organização e dos governos envolvidos no rally. A tristeza de chegar mais cedo em casa é notável, mas a alegria de estar vivo e pronto para os próximos desafios é maior.

A partir de agora começam as preparações para os Campeonatos Brasileiro e Paulista de Rally Cross Country 2008, e uma espera ansiosa para conhecer as surpresas do Rally Dakar 2009. Tomara que, desta vez, sejam boas surpresas. E somente no âmbito esportivo.

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